terça-feira, 9 de setembro de 2008

A MOÇA TECELÃ , CONTINUAÇÃO:


Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e
portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caia lá
fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite
chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e
entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando
o rítmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o
marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da
mais alta torre.
- É para que ninguém saiba do tapete - ele disse. E antes de
trancar a porta à chave, advertiu: - Faltam as estrebarias.
E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo
o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe
pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E
pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha
de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia
sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer
barulho, subiu a longa escada da torre, sentou´se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a
lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para
o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos,
as carruagens, as estreabarias, os jardins. Depois desteceu
os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha.
E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim
além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura,
acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de
se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos,
e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido,
o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o
emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu
uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios,
delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha
do horizonte.
"Marina Colasanti"

*Esse foi o final do texto. O começo de "A MOÇA TECELÃ",
está abaixo, na postagem de 08-09-08. Motivo, texto enorme,
portanto, dividi em duas postagens."

2 comentários:

Denise Ceciliano disse...

Nossa, que estoria linda!

Vassil Oliveira disse...

Oi, Denise! Menina, saudade mata!!! Bjão! (com todo respeito: é bjão de primo, né!)